quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Desisto de procurar um bom texto. Nos livros, em mim ou em ti.
Vamos partir para a realidade: somos péssimos.
Mesmo quando copiamos ou traduzimos o pensamento de alguém.
Somos péssimos com as palavras.
Mesmo sendo professores, guias, educadores.
Somos terríveis quando nos expomos. E piores ainda quando nos revelamos.
Vamos deixar que o silêncio nos contenha.
O silêncio será nossa elegância.
Uma música ou outra, eu te deixo cantar. E cantarei para você dormir.
Mais do que isso, será muito.
E sendo muito, destruirá o que havia de melhor para guardar.
Vamos guardar todo esse muito para nós.
Revelado, desaparecerá.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Vou te vender minha alma
com prazo de devolução.
Produto barato,
com garantia,
te causará irritação.

Você devolve prá rua.
Volta prá prateleira
de liquidação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sento na praça prá te esperar.
De dia, o sol ilumina o Cristo todo.
Com muita luz, não há Cristo sem cabeça.
Protegida. Te espero, no banco da praça.
Quando você não vem, faço uma prece.
Entro na Matriz prá me ajoelhar.
Melhor do que ninguém, você sabe:
ajoelhou, tem que rezar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Preciso mergulhar,
sem me afogar.
Não sei nadar tão devagar.
Desaprendi a acompanhar.
Larga as 99 ovelhas, meu pastor.
Venha me salvar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Kurt veio me buscar para uma pizza.
Camisa pólo, schatz? Pode não.
Você é o roqueiro mais bonito do sertão.
De jeans e camiseta preta. Ah, Ray Ban velho, claro.
Não tente me agradar.
Agradar é continuar. Como está.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

PALAVRAS - Manoel de Barros

Palavra dentro da qual estou há milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.

Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.


E tem mais uma: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
como árvore.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

E quando dá saudade de quem não deveria fazer falta?
Só quero um conselho, te digo. Algo que Bidu diria: onde está seu amor próprio?
O Bidu sabe que não é amor próprio o que me falta. Que desse tenho prá vender.
Falta alguém prá me contar o que você anda fazendo.
Deve estar botando todas prá quebrar, prá variar. Deve estar dançando, gritando, girando. Deve estar vivendo prá caramba. E curtindo. Não te falta vocação.
Quero só que alguém me conte que você está bem. Mesmo que eu não duvide disso.
A quem perguntar, quando não se pode perguntar por alguém?
Não sei se você algum dia andou por aqui. Deu só uma olhadinha. Assim, por curiosidade.
Se passar por aqui de novo, comenta lá, por favor.
Anônimo: estou bem, Maria, curtindo prá caramba. Como sempre.

Não é céu sobre nós
Dele essa noite não veio
E muito menos vai o dia chegar

Se chegar, não é sol
Quem sabe a luz de um cigarro
Que desaba do vigésimo andar

É fogo, mora
Deixa essa brasa descer lá fora
Deixa o mundo todo queimar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá
(Vitor Ramil)
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões*

Eu coleciono estilingues. Como veteranos de guerra que colecionam armas, enfeito com eles o meu porão. Nao os penduro conforme o tamanho ou data de fabricação. Apenas coloco à direita os que já usei e à esquerda os que nunca acertarão nada.
Explica-se por aí que estilingue é arma de baixo poder. Saber disso me faz bem. Ameniza a culpa que me corrói nas tardes que perco ensaiando uma pedrada aqui, outra lá.

Quando ando por aí, olhando prá baixo, já sei bem que pedra combina com que borracha. E prá quem.

Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês*

*Joao e Maria - Chico Buarque

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