domingo, 29 de novembro de 2015

Discurso é bom
e eu gosto.
Você não.
Só fala da boca pra fora.
Eu não.
Eu gosto da fala é na lata
e da ação.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Você não está
em nenhum lugar,
além do nome tatuado,
da caixa de pequenas memórias,
da cicatriz que eterniza a dor,
do meu  profundo amor.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Recorro ao acaso, por medo dos temporais.
Não me sustento mais sobre meus pés.
Não sei mais andar na chuva
sem molhar o avesso de minhas roupas.
Escuto: estou com fome.
Entrego o pão ao menino e sei que não fui eu.
Não sinto fome nem dor.
Aguardo tua vinda,
pois neste mundo não caibo mais como quem fui
nem como quem sou.
Preciso de tua terra prometida.
Vou comer então seus frutos,
criar forças para plantar e colher.
Por enquanto, não colho.
Tenho medo de plantar
para ver tudo levado mais uma vez pelo temporal.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A força que já não tenho
faz a falta que preencho de dias.
Horas bem cheias
devolvem o ritmo das batidas
ao coração parado à golpe,
dilacerado,
pelas mãos impunes
desta vida vã.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Mãos lavadas

Evita olhar para o lado
para não acordar teu silêncio.
Se há vida nestas vidas,
deixa estar como está.

Não se mexa em teu sono,
durma tranquilo tua culpa.
E se a culpa não é tua,
diga então de quem será.

Não encara estes olhos
habitados por sonho e medo.
Não queira saber o segredo
da tristeza deste olhar.

Seja firme em teu sossego,
lava as mãos e cruza os dedos.
Não se meta nos assuntos
que a tua consciência te gritar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Já vivi horrores,
ainda os vivo,
mas encontrei outro jeito olhar.

Senti tantas dores,
que ainda doem,
mas soube bem me acostumar.

Sonhei alto, tive glórias,
caí feio e lambi o chão,
mas tateei com toda graça
cada canto do meu coração.

Não herdei terras, não deixo nada.
Não busco aplausos,
nem reconhecimento.

Pois sei que a vida é só um salto
torto e ligeiro
no conhecimento.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Não demora,
chega a hora do basta
também nos olhos de quem não quer ver.
Na minha cara dói o mesmo tapa
que um dia vai doer em você.
Tanta gente esbraveja e só acho graça:
vai sobrar pra todo mundo que vê.
Não sou eu
nem somos os únicos da raça.
Ninguém vai sobreviver.

sexta-feira, 14 de março de 2014

A garganta imensa do tempo
solta o grito e estoura meu dia: 
tudo o que você não fez,
tudo o que você não deu, 
uma vida toda que perdeu
será sempre sua companhia.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Em dias de paz,
te peço um pouco mais.
Mas se entramos em guerra,
o amor de nós se encarrega.
Nos acorda e dá um fim
ao pesadelo inútil,
à bobagem plantada
onde não vale nada.
Volto a mim,
volto-me para ti.
Somos de novo nós.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Hipocrisia

A Santa quando fala é bonito,
tem a palavra certa pra agradar.
Na Santa falando eu quase acredito,
mas logo me lembro de gargalhar.

O Lindo reflete de um jeito sensível,
jeito de quem tem tempo pra pensar.
Mas pensa sempre bem do longe do grito
de quem não tem mais pra quem gritar.

A Moça quando sonha é uma graça,
é só música e perfume no ar.
Mas um dia leva um tiro na praça,
e só vai ter mãe e pai pra chorar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Um instante aqui,
mas nada mais.
Não saio disto,
mais nada sai.
Olho pra trás:
a mesma palavra,
repetição cansativa
de todos nós.
Preciso de um verbo,
uma sílaba, um tom.
Um ritmo novo
pra nossa voz.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Pragmático

Você diz que é
Assim como é
Aceito

Você só me olha
E logo que olha
Me deito

Tua mão escorrega
E tem lugar certo
Meu peito

Tua força e teu peso
Como mais gosto:
Teu jeito

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Para R.

Nós já nos encontramos
sobre as águas,
sob estrelas,
a cada luar.

Nós já nos achamos,
sem mais qualquer risco
de não chegar
ao nosso lugar.

Já não há perigo
nem sombras no ar.
A palavra é nosso abrigo,
jeito certo de olhar.

Aqui não é longe,
assim está mais que certo.
Juntos não é um ponto, 
é o coração aberto.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pega teu estilingue
e atire a segunda pedra,
bem no meio da minha cara.
Cuspa ou dê um tapa.
Para mim, tanto faz.
Nada me derruba
e sigo em frente, sempre.
Não preciso de análise
ou tarja preta.
Preciso de amor,
que é o que dou.
Reciprocidade.
Mas se você não tem pra dar,
não faltará quem
entenda
que cuidar de quem amamos
não é paranoia.
É apenas carinho,
um jeito de ser humano.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Cabe um trecho de verdade
nesse monte de bobagem que venho dizendo.
Porque ser legal dá no saco
e não duvide de que tenho um.
Um ponto que quero deixar bem claro:
não é desgosto,
nem veneta que me traz aqui,
muito menos a falta de opção.
É o gosto pelo bem feito,
pelo tudo dito na lata
com todos os baldes devidamente chutados.
Depois de todo leite derramado,
aí que é hora de escrever a história.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões*

Eu coleciono estilingues. 
Como veteranos de guerra que colecionam armas, 
enfeito com eles o meu porão. 
Não os penduro conforme o tamanho ou data de fabricação. 
Apenas coloco à direita os que já usei 
e à esquerda os que nunca acertarão nada.
Explica-se por aí que estilingue é arma de baixo poder. 
Saber disso me faz bem. 
Ameniza a culpa que me corrói nas tardes que perco 
ensaiando uma pedrada aqui, outra lá.
Quando ando por aí, 
olhando pra baixo, 
já sei bem que pedra combina com que borracha. 
E pra quem.

Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês*

*Joao e Maria - Chico Buarque

Eu sou forte pra caramba.
Além de levantar peso todo dia,
levo soco na barriga como ninguém.
Já caí do trigésimo andar e restam só feridas.
Levei um balde de água fria, sem gripar.
Sobrevivi a uma pandemia,
a um acidente automobilístico,
ao tumor e à cólera.
Já cortei os pulsos e tomei veneno.
Perdi-me na escalada de uma montanha,
passei fome no estrangeiro,
vi-me sozinha no meio da noite na cidade vazia,
perdi o grande amor.
Levei muita pedrada, mesmo.
Mas não sei dizer quem foi o sem pecado
que atirou a primeira.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Perto de mim

Eu não envelheço,
pois meu coração ainda acelera
e se despedaça,
como no começo de tudo,
quando nada iria passar.

Os anos não passam por mim
e não me ensinam a dormir cedo.
Ainda vivo virando noites,
chorando encolhida nos cantos,
enquanto beijo tua foto no jornal.

Escrevo teu nome nos muros,
grito e rasgo as roupas no corpo,
correndo pelas ruas que ficam pra trás.

Pois os dias não foram suficientes
para eu desistir de buscar
e o tempo não soube me tirar a coragem
diante da dor.

Eu não envelheço,
a cada ano que passa,
e nada me faz perder a fé no amor.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Para Eliseu Raphael

muros 

pedras criadas
não mais 
pedradas

minha tua 
vidas
separadas

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões*

Eu coleciono estilingues. Como veteranos de guerra que colecionam armas, enfeito com eles o meu porão. Não os penduro conforme o tamanho ou data de fabricação. Apenas coloco à direita os que já usei e à esquerda os que nunca acertarão nada.
Explica-se por aí que estilingue é arma de baixo poder. Saber disso me faz bem. Ameniza a culpa que me corrói nas tardes que perco ensaiando uma pedrada aqui, outra lá.

Quando ando por aí, olhando pra baixo, já sei bem que pedra combina com que borracha. E pra quem.

Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês*

*Joao e Maria - Chico Buarque
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões*

Eu coleciono estilingues. Como veteranos de guerra que colecionam armas, enfeito com eles o meu porão. Não os penduro conforme o tamanho ou data de fabricação. Apenas coloco à direita os que já usei e à esquerda os que nunca acertarão nada.
Explica-se por aí que estilingue é arma de baixo poder. Saber disso me faz bem. Ameniza a culpa que me corrói nas tardes que perco ensaiando uma pedrada aqui, outra lá.

Quando ando por aí, olhando pra baixo, já sei bem que pedra combina com que borracha. E pra quem.

Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês*

*Joao e Maria - Chico Buarque

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